terça-feira, 10 de julho de 2012

Etiqueta e protocolo




Admito que quando nada se tem a dizer, mais vale cerrar os lábios e nada enviar, nem só me devo confessar pois quiçá a brisa levará palavras que nada transmitem a incautos receptores, admito que quando nada flui naturalmente desta minha mente, tão perturbada, tão obtusa, ocasionalmente brilhante em rasgos paridos do deturpar dos sentidos, naqueles dias em que simplesmente me esqueço do que é normal e do que é ser medíocre, naqueles, nestes confesso, mesmo agora, enquanto a madrugada me possui no seu primor, entra pela janela aberta, pela persiana aberta, o vento arrepia-me a pele nua, suada, perco horas a olhar para uma folha em branco, virgem ainda em busca de quem a desflore pela primeira vez e se perca em abraços de conforto e juras de amor falaciosamente eterno, mas admito que hoje não sou eu, nem para o pregão em pleno bolhão desencantava uma rima digna, um predicado de porte, um sujeito de olhar gingão a tirar cera dos ouvidos como um mindinho avantajado, 
  (o que fazer?, palavras atiradas, formam lentamente frases aborrecidas, que criam parábolas secas, em mundos estéreis,)
  nesses momentos, (concentra-te puto), nestes momentos, como agora, não falo, não sussurro, não suspiro letras soltas, nada atiro para o ar, simplesmente olho: vejo um firmamento já com pontos claros onde toca o horizonte, vejo para dar com sombras ao longe, acredito que são pessoas, tão longe que nada mais são que a minha imaginação, debruçadas sob suas janelas a simplesmente olharem, que como eu nada mais fazem do que se entregar por uma demanda por um olhar que se cruze com o delas, homens nus, em poses gregas, de cigarro atrás da orelha, mulheres em camisas de dormir reveladoras, jogam horas janela fora, esperanças para bem longe, tudo pela dor que a falta de palavras promove, tudo pelo receio de falar quando nada têm para dizer, condenados, que como eu comem o frio da noite como bolachas na busca de algo que faça clique, como o regresso de uma puta de transcendência com a personalidade de uma javalina prenhe.

  (nada lhe tenho a dizer, nem sei como a chamar, por isso não direi, também imagino que olhar longamente para o nada que forma seu corpo abstracto não seja educado, mas com saia ou sem, com roupa interior ou sem, a verdade é que mais tenho para fazer, já que o protocolo me cerra os lábios do que procurar por Vossa sexualidade.)

*sem acordo

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